Sei que é chato falar em primeira pessoa. Mas só assim é
possível contar uma história de carinho. Bem no comecinho da carreira, na
Assessoria de Imprensa da CNI, levei o primeiro esporro. Minha tarefa? Das mais
simples: enviar releases, por fax, para as editorias de Economia. Numa página
avulsa, eu batia, à máquina, o nome do jornalista, a coluna e o veículo. Era
simples, mas me confundi, troquei as bolas: Fulana, Painel Econômico, O Globo.
Painel Econômico era o nome da coluna na Folha de S. Paulo. No dia seguinte,
uma jornalista, já famosa, encerrou a coluna com uma notinha, mais ou menos
assim . "A numerosa assessoria do senador Albano Franco não sabe onde
ficam as colunas dos jornais. Aqui fica o Panorama Econômico.
Quando cheguei no estágio, todos já sabiam do meu erro.
Alguém me avisou que o chefe direto queria falar comigo. "Essas coisas não
podem acontecer. Tem que ter mais concentração. O senador ficou chateado.
Quando o chefão chegar, ele quer falar com você." Foi uma tarde longa de
espera. "Vai lá, ele chegou!' O ele em questão era o Carlos Monforte, o
manda-chuva da Assessoria. Ao contrário do que esperava, ele me recebeu com
muita naturalidade. Passado o clima cerimonioso - afinal, era a primeira vez
que o via - ele me confessou. "O erro não foi tão grave. E vou te contar
um bastidor. A jornalista teve uma desavença com o senador. E você faciliitou a
vida dela. Serviu de pretexto para a porrada que ela queria dar nele", me
disse, rindo.
No encontro seguinte, uns três meses depois, foi ele que me
procurou. "Me falaram que você gosta de escrever. E aqui, na Ascom, você
não escreve nada. E quando escreve, erra os endereços", brincou, pra
completar. "A CNI publica uma revista trimestral, que não cumpre bem essa
periodicidade. Eles estão precisando de gente.
Você não quer passar um temporada por lá?". E lá fui eu para a primeira experiência como
repórter, graças à generosidade do Monforte.
Certa vez, precisei produzir um programa de última hora. Já
passava das sete da noite e tínhamos que gravar no dia seguinte, às nove da
manhã. Providenciei tudo aqui do Rio , Entrevistados, passagens e hospedagens,
horários de gravação. Só faltava arrumar o estúdio em Brasília. Naquela época,
início dos anos 2000, Globo e Globo News
dividiam espaço para gravar os programas, As negociações, eu já sabia, eram
sempre difíceis. Liguei pro Monforte. "Não é possível, Paulo Marcelo. A
essa hora? As coisas não são assim! Vou ver o que faço". E desligou. Logo
depois, atendi uma ligação do Graziani, que cuidava da parte técnica. "O
comandante me ligou aqui. Vamos resolver". Em pouco tempo,.a resposta. "Podemos
gravar amanhã. Tá tudo certo", anunciou Monfa, meio que bufando.
"Valeu, Shane!", agradeci. "Que história é essa de Shane?, ele
quis saber. "Porra, Monfa, eu achava que você gostasse de faroeste. Shane
é o protagonista de 'Os Brutos Também Amam'", informei. Ele soltou uma
gargalhada.

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