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OS BRUTOS TAMBÉM AMAM

Foto: Reprodução        Sei que é chato falar em primeira pessoa. Mas só assim é possível contar uma história de carinho. Bem no comecinho da carreira, na Assessoria de Imprensa da CNI, levei o primeiro esporro. Minha tarefa? Das mais simples: enviar releases, por fax, para as editorias de Economia. Numa página avulsa, eu batia, à máquina, o nome do jornalista, a coluna e o veículo. Era simples, mas me confundi, troquei as bolas: Fulana, Painel Econômico, O Globo. Painel Econômico era o nome da coluna na Folha de S. Paulo. No dia seguinte, uma jornalista, já famosa, encerrou a coluna com uma notinha, mais ou menos assim . "A numerosa assessoria do senador Albano Franco não sabe onde ficam as colunas dos jornais. Aqui fica o Panorama Econômico.      Quando cheguei no estágio, todos já sabiam do meu erro. Alguém me avisou que o chefe direto queria falar comigo. "Essas coisas não podem acontecer. Tem que ter mais concentração. O senador ficou chateado. ...
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THERESA, A CULPADA

Foto: Vera Iris Paternostro        Culpada! Quando ouvi, de longe, Daniel Barenboim dedilhando uma sonata de Beethoven, fui até a ilha de edição. Lá estava ela, a culpada, com lágrimas nos olhos, fungando e tudo. No corre-corre de um canal de tevê, havia – acreditem! – espaço tanto para o talento argentino como para um artista plástico desconhecido da periferia carioca. Porque a culpada não estava nem aí para o que era televisivo ou não, embora fosse uma mulher essencialmente de televisão. Se algo lhe causasse emoção, por que não espalhar essa emoção? Embora meiga, com a voz sempre doce, serena e baixa, minha amiga tinha fortes convicções. Se alguém duvidasse da audiência de um programa muito denso, dane-se a audiência. E lá estava nossa Quixote a empunhar sua espada. Não havia ali nenhuma arrogância, mas sobrava ironia. “O problema, meu amigo, é que as pessoas não querem escutar os outros. Elas gostam de ouvir as próprias vozes”, dizia.      Theresa...

O HOMEM QUE NÃO CALCULAVA

       Poucas vezes discordei de Marcelo Sá Corrêa; talvez uma só. “Não entendo, Paulinho, como você não gosta de matemática. Com ela é mais fácil entender o mundo”, me disse, certa vez. Eu não entendo muito bem essa teoria (afinal, não fui aluno do Marcelo), mas tirei dela e tiro desde a última quinta-feira, um consolo. Como foi dito, fui péssimo aluno de matemática, que já me fez repetente algumas vezes. Talvez nosso amigo tivesse razão. Não pelo amor aos teoremas, às equações, às raízes quadradas, mas pela soma. E pelas subtrações.      Marcelo somou amigos, carinhos, amor, solidariedade. E, durante sua permanência entre nós, tentou subtrair injustiças e tristezas. Nos últimos tempos, andava feliz da vida com o seu, o meu, o nosso Botafogo, campeoníssimo de tudo. O triunfo do Glorioso foi para ele não um tango argentino, mas um samba na voz do seu amigo querido Nelson Sargento. Porque samba também era uma de suas paixões.      Por uma...

120 ANOS NUMA TARDE EM BUENOS AIRES

         “Perder a gente não perde. Com o Mauro e o Gottardo lá atrás, a gente fica seguro. É só esperar uma chance”. A cada fim de treino em Marechal Hermes, eu ouvia essa mesma frase de Paulinho Criciúma. Era quase um mantra. Ou seria mais uma superstição? “Malandro, é muito difícil, é uma foda ganhar da gente”, me dizia Gil, o braço direito do técnico Valdir Espinosa. Lá se vão 35 anos e vivemos outros tempos. Não há mais um comprometimento dos jogadores com os clubes. Eles são uma espécie de inquilino, que aluga a casa para uma temporada. No verão, prefere a praia, No inverno, a serra. Não há mais aquele carinho pela casa própria. Naquele 1989, dirigentes – leia-se Emil! Emil! Emil! Somente Emil! –; técnico, auxiliar-técnico; jogadores; preparadores físicos; preparador de goleiros; massagistas; motoristas; seguranças; assessores, todos construíram, todos os dias, tijolo a tijolo,  aquela que seria a nossa ‘Sagrada Família’ de Gaudi; a nossa Pietá de Mic...

O GÊNIO SIMPLES

       Sou ruim de datas. Por isso, difícil precisar o ano. Só sei que não esqueço quando sugeri ao Renato Machado que convidássemos o Evandro Teixeira para o “N de Notícia”, da GloboNews. Renato nunca se empolgava. Antes de sentir raiva, entendia um   pouco a situação. Ao desejar aos telespectadores ‘um bom fim de semana’, no encerramento do ‘Bom Dia Brasil”, Renato já entrava no modo folga. Mas ainda tinha aquela gravação de sexta-feira.      Naquela semana tudo foi diferente. Ao ouvir o nome do fotógrafo, Renato sorriu. Vibrou até. Era a chance de reencontrar um velho amigo de Jornal do Brasil. E lá fui eu fazer a pré-produção do programa. Com o cinegrafista Eglédio Vianna, no apartamento de Evandro, em frente ao Planetário da Gávea, filmamos as fotos que ilustrariam o programa.      Depois do trabalho, Evandro pediu que eu escolhesse uma foto. Gentil, queria retribuir a homenagem. Feliz, pedi que ele apontar sua preferida. Tir...

O AMIGO QUE PERDI

       Parecia Natal. O ambiente – igrejas seculares, procissões cantadas,  mulheres de véus com terços nas mãos – tudo remetia aos céus. Mas não era Natal. Naqueles dias de Páscoa, apenas uma imagem fazia lembrar o nascimento de Jesus. A imagem do senhor de camisa vermelha, baixo, gordinho, cavanhaque branco, meio encurvado, poderia confundir uma criança, que facilmente abriria um sorriso para aquele papai Noel dos trópicos. Num jardim bem cuidado na Colônia, em São João Del Rey, podíamos observar um mineiro típico, embora aquele que seria um grande amigo – vim a saber depois – não tivesse nada de mineiro. Um copo de cerveja e outro de cachaça, cuidadosamente deixado ao alcance da mão, e a prosa corria frouxa. Ali, naquela tarde, o pequenino Antônio recém-batizado, teve que dividir as atenções, Seu avô foi também o astro.        Dos barcos do Clube do Remo às aventuras de um posto de gasolina, aquele gordinho careca tinha muito o que co...

SALDANHA VISITA MUSEU DO ÍNDIO

       De volta ao estádio Mario Filho como mandantes, torcedores do Botafogo discutem qual o melhor setor para assistir o jogo contra o Criciúma, na sexta-feira, 18 de outubro: o acesso pela estátua do Bellini ou pela rampa da UERJ, a opção pelo antigo portão 18 ou pela entrada ao lado da Aldeia Maracanã, que já abrigou o Museu do Índio.      O museu me fez lembrar de uma cena cômica. Na década de 1970, um torcedor, a caminho do Maracanã, se encontrou com o jornalista João Saldanha.  “Saldanha, você por aqui? Veio ver o jogo?”, perguntou. João, sem paciência, devolveu, de bate-pronto. “Não. Vim visitar o Museu do Índio”.