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120 ANOS NUMA TARDE EM BUENOS AIRES

         “Perder a gente não perde. Com o Mauro e o Gottardo lá atrás, a gente fica seguro. É só esperar uma chance”. A cada fim de treino em Marechal Hermes, eu ouvia essa mesma frase de Paulinho Criciúma. Era quase um mantra. Ou seria mais uma superstição? “Malandro, é muito difícil, é uma foda ganhar da gente”, me dizia Gil, o braço direito do técnico Valdir Espinosa. Lá se vão 35 anos e vivemos outros tempos. Não há mais um comprometimento dos jogadores com os clubes. Eles são uma espécie de inquilino, que aluga a casa para uma temporada. No verão, prefere a praia, No inverno, a serra. Não há mais aquele carinho pela casa própria. Naquele 1989, dirigentes – leia-se Emil! Emil! Emil! Somente Emil! –; técnico, auxiliar-técnico; jogadores; preparadores físicos; preparador de goleiros; massagistas; motoristas; seguranças; assessores, todos construíram, todos os dias, tijolo a tijolo,  aquela que seria a nossa ‘Sagrada Família’ de Gaudi; a nossa Pietá de Mic...

O GÊNIO SIMPLES

       Sou ruim de datas. Por isso, difícil precisar o ano. Só sei que não esqueço quando sugeri ao Renato Machado que convidássemos o Evandro Teixeira para o “N de Notícia”, da GloboNews. Renato nunca se empolgava. Antes de sentir raiva, entendia um   pouco a situação. Ao desejar aos telespectadores ‘um bom fim de semana’, no encerramento do ‘Bom Dia Brasil”, Renato já entrava no modo folga. Mas ainda tinha aquela gravação de sexta-feira.      Naquela semana tudo foi diferente. Ao ouvir o nome do fotógrafo, Renato sorriu. Vibrou até. Era a chance de reencontrar um velho amigo de Jornal do Brasil. E lá fui eu fazer a pré-produção do programa. Com o cinegrafista Eglédio Vianna, no apartamento de Evandro, em frente ao Planetário da Gávea, filmamos as fotos que ilustrariam o programa.      Depois do trabalho, Evandro pediu que eu escolhesse uma foto. Gentil, queria retribuir a homenagem. Feliz, pedi que ele apontar sua preferida. Tir...

O AMIGO QUE PERDI

       Parecia Natal. O ambiente – igrejas seculares, procissões cantadas,  mulheres de véus com terços nas mãos – tudo remetia aos céus. Mas não era Natal. Naqueles dias de Páscoa, apenas uma imagem fazia lembrar o nascimento de Jesus. A imagem do senhor de camisa vermelha, baixo, gordinho, cavanhaque branco, meio encurvado, poderia confundir uma criança, que facilmente abriria um sorriso para aquele papai Noel dos trópicos. Num jardim bem cuidado na Colônia, em São João Del Rey, podíamos observar um mineiro típico, embora aquele que seria um grande amigo – vim a saber depois – não tivesse nada de mineiro. Um copo de cerveja e outro de cachaça, cuidadosamente deixado ao alcance da mão, e a prosa corria frouxa. Ali, naquela tarde, o pequenino Antônio recém-batizado, teve que dividir as atenções, Seu avô foi também o astro.        Dos barcos do Clube do Remo às aventuras de um posto de gasolina, aquele gordinho careca tinha muito o que co...

SALDANHA VISITA MUSEU DO ÍNDIO

       De volta ao estádio Mario Filho como mandantes, torcedores do Botafogo discutem qual o melhor setor para assistir o jogo contra o Criciúma, na sexta-feira, 18 de outubro: o acesso pela estátua do Bellini ou pela rampa da UERJ, a opção pelo antigo portão 18 ou pela entrada ao lado da Aldeia Maracanã, que já abrigou o Museu do Índio.      O museu me fez lembrar de uma cena cômica. Na década de 1970, um torcedor, a caminho do Maracanã, se encontrou com o jornalista João Saldanha.  “Saldanha, você por aqui? Veio ver o jogo?”, perguntou. João, sem paciência, devolveu, de bate-pronto. “Não. Vim visitar o Museu do Índio”.

SATURNINO, O FÃ DE HELENO

     A democracia engatinhava. Naquela época, mesmo aqueles que não votavam, participavam de campanhas. Era minha segunda incursão nas panfletagens. A estreia tinha sido três anos antes, na eleição de Leonel Brizola. Em 1985, lá estava eu, pertinho de casa, batendo ponto no comitê de Saturnino Braga em Santa Teresa. Vez por outra, ele passava por lá a bordo de seu Fusquinha, acho que azul. Mais uma vitória do PDT, numa surra que fez o almofadinha Rubem Medina passar vergonha.      Anos depois, entrou num restaurante acompanhado da mulher. Ao passar por mim, parou. “Você sabia que cheguei a ver o Botafogo usando essa camisa em General Severiano?” Eu estava vestido com uma camisa retrô, com o escudo do Football Club, ainda sem a famosa estrela solitária. “Ainda vi o Heleno em ação!”, gabou-se. “Que privilégio, senador. Heleno foi o jogador que mais amou o Botafogo”, lhe disse. “Eu sei disso. Por essa e outras razões, como a vontade de vencer, ele é, até hoje,...

E AINDA FALAVAM MAL DO PERI...

       Com exceção de Gérson, campeão do mundo em 1970, não vi ninguém criticar o lateral-direito Danilo. Esse rapaz não consegue ser nada, nem na defesa nem no ataque.      E pensar que a imprensa, na década de 80, não poupava o Perivaldo, lateral do Botafogo. Racismo, flamenguismo? Sei lá! Só sei que Peri da Pituba jogaria em alto nível hoje em dia.       Até quando esse Danilo vai enganar? De repente quando o Brasil ficar fora da Copa de 2026.

O ENCONTRO DE BETH E IRENE

     Como explicar a coincidência de saber da perda de mulheres fortes num mesmo dia? Hoje, logo pela manhã, experimentei essa sensação. Se, mesmo cristão, ainda não consigo encarar a morte como algo natural, há em mim um vago consolo de pensar em Irene e Beth e vir, não o choro, mas um sorriso.      Beth e Irene não se conheceram. Mas, parecidas que eram, tenho certeza que nasceria ali uma grande amizade. Porque tinham muito em comum. Além do sorriso fácil, mas paradoxalmente tímido, elas sabiam agregar. Não existia quem não quisesse estar ao lado delas. Irene e Beth, Beth e Irene, transmitiam paz, mesmo lutadoras que eram.      Irene amou Hélcio Gama, mulato alto e forte. Mestre de judô, Hélcio apostava na disciplina, que deixou como legado para seus inúmeros seguidores. Golpeada pela morte do marido - um duro ippon na dureza do dojô - Irene focou na educação para levar a vida adiante com os filhos, sempre com seu jeito doce.    ...